Três empresas com o mesmo faturamento podem pagar valores radicalmente diferentes de imposto. Tudo depende de uma única decisão no início do negócio — e que pode ser revista. A escolha entre Lucro Real, Lucro Presumido ou Simples Nacional define toda a estrutura tributária de um negócio. Mas muitos empreendedores deixam essa escolha para trás, sem revisá-la, custando milhares de reais todos os anos.
Com a Reforma Tributária aproximando-se e a janela de opção pelo novo regime chegando em setembro de 2026, nunca foi tão importante entender essas diferenças. Este guia oferece o comparativo definitivo para que você escolha (ou revise) o regime certo antes da transição.
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Regime tributário: por que é tão decisivo


O regime tributário define como sua empresa calcula, lança e recolhe os impostos federais (IRPJ, CSLL, PIS, Cofins). Escolher o regime certo reduz a carga fiscal; escolher errado custará meses de lucro por ano. É uma decisão que afeta diretamente o bolso — mas raramente recebe a atenção que merece na hora da abertura.
A boa notícia: essa escolha não é permanente. Você pode revisar o regime uma vez por ano, e essa revisão é exatamente o que a maioria das empresas mais lucrativas faz no meio do ano.
Simples Nacional: a escolha da maioria
O Simples Nacional funciona assim: você recolhe um único imposto, o DAS (Documento de Arrecadação do Simples), que engloba IRPJ, CSLL, PIS e Cofins em uma única alíquota. O cálculo é feito sobre o faturamento bruto, sem descontar custos — é o mais “simples” de todos.
- Para quem: empresas com faturamento anual até R$ 4,8 milhões
- Alíquota: entre 4% e 32%, dependendo do faturamento e do setor (anexo I a V)
- Base de cálculo: faturamento bruto
- Custo de contabilidade: menor
- Burocracia: reduzida
O Simples Nacional é ideal para pequenas e médias empresas porque reduz a burocracia e costuma ter a menor carga tributária até um ponto. Mas tem uma armadilha: se você trabalha com vendas para outras empresas (B2B), deixa de recuperar créditos de IPI, ICMS e PIS/Cofins que o cliente poderia descontar. Isso pode torná-lo mais caro a partir de certo faturamento.
Lucro Presumido: quando a empresa cresce
No Lucro Presumido, o governo “presume” qual é seu lucro (5% a 32% da receita, conforme o setor) e cobra imposto sobre esse valor, não sobre a receita real. Você paga IRPJ (15%, mais 10% de adicional se o lucro presumido ultrapassar R$ 20 mil/trimestre), CSLL (9%), PIS e Cofins (9,25% combinados) — tudo separado, tudo com guias diferentes.
- Para quem: empresas com faturamento entre R$ 4,8 milhões e R$ 78 milhões
- Alíquota efetiva: entre 15% e 25% da receita
- Base de cálculo: lucro presumido (% do faturamento conforme setor)
- Custo de contabilidade: médio
- Burocracia: moderada (ECF, escrituração mensal)
O Lucro Presumido torna-se vantajoso quando sua empresa tem custos baixos (porque o governo fixa o lucro presumido, independentemente de quanto você realmente gasta) e quando trabalha com venda a empresas (porque recupera créditos de ICMS e IPI). Ele funciona como um “meio termo” entre o Simples e o Lucro Real.
Lucro Real: para quem precisa de máxima precisão


No Lucro Real, você calcula o imposto sobre o lucro efetivo de sua empresa — receita menos todos os custos e despesas reais. É o regime mais rigoroso, mas também o mais justo: você só paga impostos pelo que realmente ganhou.
- Para quem: empresas com faturamento acima de R$ 78 milhões ou obrigatoriamente para certos setores (instituições financeiras, seguradoras)
- Alíquota efetiva: entre 15% e 34% (conforme custos e deduções)
- Base de cálculo: lucro real (receita – despesas comprovadas)
- Custo de contabilidade: maior (escrituração complexa, apuração mensal ou trimestral)
- Burocracia: muito alta (livros, ECF, certificação digital, auditoria frequente)
O Lucro Real é obrigatório para empresas acima de R$ 78 milhões de faturamento anual, mas também é voluntário para quem quer. Para empresas com margem de lucro baixa (indústrias pesadas, comércio), o Lucro Real costuma ser bem vantajoso porque você deduz todos os custos reais. Para empresas com alta margem e poucos custos, pode sair mais caro.
| Comparativo dos três regimes | |||
| Critério | Simples | Presumido | Real |
| Faturamento máximo (anual) | até R$ 4,8M | até R$ 78M | sem limite |
| Base de cálculo | Faturamento bruto | Lucro presumido (%) | Lucro real |
| Alíquota típica | 6% a 30% | 15% a 25% | 15% a 34% |
| Recuperação de créditos | Limitada | Sim (ICMS, IPI) | Sim (completa) |
| Burocracia | Baixa | Média | Alta |
| Custo de contabilidade | Baixo | Médio | Alto |
| Melhor para | Pequenas empresas | Custos baixos, vendas B2B | Custos altos, grandes volumes |
Como escolher: passo a passo
A escolha não é por “achismo”: é pura matemática. Aqui está o processo que contadores usam para definir o regime certo:
- Levante os números do último ano: faturamento total, custos operacionais (matéria-prima, folha, aluguel, fornecedores), despesas fiscais (contador, softwares).
- Simule cada regime: calcule quanto você pagaria de imposto em cada um (Simples, Presumido, Real).
- Considere o padrão de negócio: se trabalha com B2B (venda para empresas), o Presumido/Real com recuperação de créditos é favorável. Se é B2C (venda para pessoas), Simples costuma ser melhor.
- Revise no meio do ano: não deixe a escolha apenas para dezembro. O melhor regime hoje pode não ser o melhor em setembro, quando o faturamento real do exercício começa a ficar claro.
Essa simulação é o que chamamos de diagnóstico tributário — é simples, custa pouco fazer e pode devolver ao seu bolso dezenas de milhares de reais por ano.
A Reforma Tributária muda essa escolha?
A Reforma Tributária (LCs 214/2025 e 227/2026) preserva os três regimes — Simples, Presumido e Real — mantendo sua estrutura básica. Mas cria uma novidade: a possibilidade de Simples Híbrido, onde você pode recolher os novos impostos (IBS e CBS) “fora” do DAS, recuperando créditos como no regime de lucro.
A janela para essa opção abre em 1º de setembro de 2026 e fecha em 30 de setembro de 2026. Isso significa que você tem pouco tempo para revisar a escolha e decidir se fica no Simples puro ou migra para o híbrido — ou até para o Presumido/Real.
Perguntas frequentes sobre regimes tributários
- Qual regime paga menos imposto?
Depende do caso, mas geralmente: Simples puro para pequenas empresas com pouco custo; Presumido para médias com custos moderados e venda B2B; Real para grandes volumes ou margem muito baixa.
- Posso trocar de regime quando quiser?
Não. A mudança só é permitida uma vez por ano, entre janeiro e maio, para valer a partir de julho. Exceção: a Reforma Tributária abre uma janela extra em setembro de 2026.
- Simples Nacional paga menos?
Geralmente sim, para faturamentos pequenos (até R$ 2M). Acima disso, Presumido ou Real podem sair mais baratos.
- Qual regime é obrigatório?
Lucro Real é obrigatório acima de R$ 78M de faturamento anual. Abaixo disso, você escolhe.
- O Presumido compensa mesmo com a Reforma?
Sim. Especialmente para empresas com custos baixos e vendas B2B, porque recupera créditos de IBS/CBS.
- Preciso de contabilidade completa em todos os regimes?
Não. Simples exige contabilidade simplificada. Presumido e Real exigem escrituração e livros fiscais mais detalhados.
A escolha do regime tributário não é um detalhe administrativo — é uma decisão estratégica que define quanto da sua receita fica com você e quanto vai para o governo. Revisá-la regularmente, com dados reais e simulações claras, é o que separa empresários que pagam mais do que precisam daqueles que usam a lei a seu favor.
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